Como julgar um review e o que esperar de uma boa resenha de produto

Como julgar um review e o que esperar de uma boa resenha de produto

Comecei a escrever essa publicação em uma rede social como uma reclamação sobre o review publicado no Guia de Compras sobre o Bastão Facial Esfoliante da Ricca.

Essa postagem não me parece tão desonesta quanto desinformada. A esfoliação mecânica – geralmente feita com açúcar, carvão, pó de café e microplásticos – é um método desnecessariamente abrasivo e pouco eficaz de esfoliar a pele.

Esse tipo de esfoliação pode ser feito com maior eficácia e delicadeza apenas limpando o rosto com uma toalha de microfibra durante o banho, ou, para um tratamento de esfoliação mais profunda e sofisticado, com a administração de ácidos.

Na publicação da UOL, Heloísa Noronha escreve elogios sobre o produto sem nunca comparar os resultados contra as promessas dos claims ou explicar qualquer coisa sobre o que é o processo de esfoliação mecânica e como ele funciona (afinal, o produto se chama "Magic", não é mesmo?).

Ela foca seu review em pontos menos importantes como "sensorial", embalagem e "rendimento" sem nunca mencionar nenhum ingrediente da fórmula, estudos clínicos, ou oferecer nenhum registro fotográfico que ao menos mostre um antes e depois do tratamento.

Apesar disso, concluiu positivamente:

Tenho usado o bastão esfoliante Magic Stick, da Ricca, duas vezes por semana e, ao longo desses três meses, percebi minha pele mais macia e uniforme.

Também notei que os produtos aplicados depois, como protetor solar e séruns hidratantes, espalham-se com mais facilidade e deixam uma sensação mais agradável no rosto.

Para o leitor, fica impossível saber se a "percepção de pele macia e uniforme" tem realmente a ver com o uso do produto ou com outro tratamento que ela esteja usando. Além disso pode simplesmente ser que essa percepção seja enganosa.

Já a conclusão "produtos aplicados depois, como protetor solar e séruns hidratantes, espalham-se com mais facilidade" parece desinformada. Qualquer camada de hidratação mais leve feita antes de uma camada mais espessa vai causar esse efeito e é por isso que a rotina de skincare coreano consiste em aplicar produtos dos mais aquosos para os mais espessos, não significa muita coisa.

Meu ponto não é que o produto seja ruim, acontece que, provavelmente, seus benefícios se limitam a oferecer uma camada leve de hidratação e preenchimento temporário. Muitos produtos cumprem essa função um tanto banal. Esse tipo de review não ensina os leitores a fazer melhores escolhas, mas mistifica como os produtos funcionam.

Entendida minha indignação com um review irrelevante do Guia de Compras da UOL, vou listar itens que acho importantes na hora de julgar se um review vale a pena ser levado em consideração.

Primeiro, faça uma busca sobre a marca.

Marcas de skincare de qualidade geralmente são dedicadas apenas a produtos de pele (justamente porque a produção é tão cara). Desconfie de marcas que fazem outros tipos de cosméticos em sua operação.

No caso da Ricca, sei que é uma marca conhecida por fazer utensílios de beleza e cosméticos básicos – como removedores de esmalte – e que recentemente inaugurou um braço de skincare. A marca oferece linhas de produtos faciais e de corpo.

Uma bandeira vermelha gigantesca dos produtos da Ricca é que eles dificultam que as fórmulas do produto sejam encontradas. Muitas marcas não colocam fórmulas nos sites e isso sempre é um ponto negativo, porque esconde informação essencial do consumidor. A própria Sallve* coloca estudos clínicos, mas não fornece a formulação pelo site.

*Eu sempre vou usar a Sallve de exemplo para malhar porque eu detesto essa marca.

Então, estabelecemos que a Ricca é uma marca nova no ramo de skincare. Seus produtos são focados em preços acessíveis e claims amplos. O que acontece no skincare é que muitos produtos são como maquiagem para criança: vão oferecer um pouco de hidratação, uma sensação de maciez temporária, porém não tem capacidade de mostrar benefícios no tratamento a longo prazo.

Como muitas pessoas são ligadas com aspectos sensoriais e ritualísticos da beleza – momento relaxante de fazer uma máscara, fragrâncias – os verdadeiros benefícios do produto como tratamento ficam esquecidos.

Agora, vamos avaliar um review imaginário de um influencer genérico. Quais seriam pontos importantes para levar em consideração?

A primeira coisa que um avaliador deve fazer é comparar a fórmula do produto e alinhar suas expectativas de resultado aos claims (e.g.: pele mais brilhosa, firmeza, redução de manchas).

Muitos produtos possuem claims vagos que são inverificáveis, outros oferecem descrições mais específicas e referenciam estudos clínicos.

Apesar disso, é importante que você consiga ter um mínimo entendimento concreto do benefício que aquela fórmula oferece. Para isso, comparamos os claims com a formulação:

  • Existem aqui ingredientes que de fato promovem esse efeito da maneira descrita?
  • Se sim: sob quais condições esses ingredientes foram testados?
    • Em quem isso foi testado?
    • Em qual lugar do mundo essas pessoas viviam?
    • O clima era igual o de onde eu moro?
  • Existem evidências de que é possível obter os benefícios listados com a formulação apresentada?
  • Os ingredientes ativos são encontrados em concentrações adequadas?
  • Essa marca tem cara de que usa ingredientes de qualidade? (seja honesto consigo mesmo, geralmente a resposta é não)

Lembrando que a concentração maior de um ingrediente ativo não significa a melhor. Por exemplo, ácidos e vitamina C funcionam muito bem em baixas concentrações, em altas podem causar irritações.

Outro exemplo é um claim de marketing muito comum: o tal do ácido hialuronico de "baixa densidade molecular". Na maior parte dos casos, esse ingrediente performa melhor quando fica na superfície da pele, porque ele cria uma barreira que impede a perda de hidratação.

A pessoa que está fazendo o review deve ter uma expectativa de resultado para ser comparada com a entrega depois do uso consistente durante um certo período de tempo. O ideal é que ela compartilhe essa informação com o público, por exemplo:

Estou usando esse sérum antioxidante porque quero diminuir algumas manchas de hiperpigmentação de acne que ficaram na região da bochecha. Vou usar durante depois meses e monitorar se haverá alguma mudança.

Depois que o influenciador testou o produto, é importante esclarecer:

  • Essa pessoa estava usando outros produtos que poderiam produzir o mesmo efeito ao mesmo tempo que fazia esse tratamento?
  • Essa pessoa definiu se os resultados eram temporários ou de tratamento?
  • Essa pessoa faz procedimentos estéticos que podem melhorar o aspecto da pele dramaticamente? (seja honesto consigo mesmo, sim)
  • Aquelas blogueiras que aparecem com a cara toda brilhosa sem nenhuma linha no rosto no site da Sallve realmente atingiram aquele resultado usando um sérum pró colageno de R$100,00 cuja fórmula não está disponível para o consumidor acessar no site?
Arquivo X: Eu quero acreditar que foi o creme pró colágeno que deixou a cara dessa galera assim.

Reviews de internet geralmente vão enfarizar o fator sensorial excessivamente – creme espalhando na cara filma bem – e ocultar informações importantes. Se um influencer está testando 10 cremes por mês é impossível que ele tenha discernimento do resultado de cada coisa.

Usando produtos há vários anos, eu sei que existem fórmulas que os resultados começam a ficar realmente solidificados depois de mais de seis meses de uso, skincare leva tempo. Trocar de fórmulas o tempo todo rompe com a consistência que um tratamento precisa para se concretizar.

Minha regra geral é que reviews de influencers, blogueiros e colunistas pagos pouco valem. É mais esclarecedor procurar relatos de pessoas reais em fórums e se informar sobre a qualidade dos ingredientes e tecnologia envolvida na formulação de cada marca.