Em desarmonia: rejeitando procedimentos estéticos
Antes de qualquer coisa, quero enfatizar que eu considero toda essa questão de intervenções estéticas (incluindo a cultura de skincare) já muito patológica em si. É difícil tocar nesse assunto em termos que respeitem a complexidade desses tópicos dentro do contexto Dr. Ray levado à enésima potência em que vivemos.
"Epidemia de harmonizações", "Arcrebianoverso" e "festas de botox" são fenômenos que podem ser levados na brincadeira, especialmente quando envolvem subcelebridades. Mas é importante deixar o cinismo de lado e pontuar que existe um processo profundo de adoecimento em relação ao senso de normalidade estética que é potencializado pelo uso de redes sociais e resulta em fenômenos psicológicos, sociais, econômicos e físicos que ainda são pouco entendidos.
Meu objetivo não é normalizar ou incentivar a adoção de procedimentos estéticos, mas explicar como eu convivo com essas possibilidades sem ficar ruim da cabeça.
Aos 33 anos, não fiz nenhum procedimento. Em parte porque eu não tenho dinheiro, mas também porque eu nunca parei muito pra pensar muito bem no que faria – mesmas razões pelas quais eu nunca fiz uma tatuagem.
Nos últimos anos, me senti preocupada ouvindo alguns relatos de colegas que fizeram procedimentos (sempre com bons resultados e sem complicações), descrevendo um processo consistia de você ir num médico que diz que tem coisas erradas com seu rosto.
Uma esteticista famosa entre minhas colegas coloca um scan 3D do seu rosto em um programa que faz medições matemáticas do que está errado nas suas proporções. Quais são as proporções de referência? Será que essa médica iria sugerir que eu, uma pessoa de descendência andina e da diáspora africana tivesse o rosto de um escandinavo?
Não gosto de ficar olhando no espelho procurando problemas e nunca pagaria alguém para fazer isso por mim. Inclusive, me parece um tanto surpreendente que essa prática profissional seja considerada uma atividade perfeitamente ética dentro da medicina.
Entre as mulheres cis – ou AMAB – existe às vezes um certo ressentimento sobre pessoas que dizem "não quero mudar nada no meu rosto", como se fosse uma provocação arrogante: eu sou perfeita, estou num patamar de beleza absolutamente inalcançável, ou, eu não sou capaz de me olhar no espelho e ver todos os detalhes que tornam meu rosto horroroso.
Então, muitas vezes, dou alguma desculpa quando me perguntam sobre procedimentos, mas a verdade é que eu realmente não quero mudar nada no meu rosto que demande uma intervenção. Gosto do efeito de usar maquiagem e gosto dos benefícios dos cremes, mas, por enquanto, me basta.
Além disso, me gera muita apreensão a questão de não conhecermos bem os efeitos físicos e psicológicos no longo prazo de tantas injeções de preenchimento, botox, inserções de próteses entre outras coisas. Pouco se fala sobre os problemas que essas práticas podem gerar no futuro se, por exemplo, uma pessoa que aplica botox a cada 6 meses durante 40 anos pode sofrer de atrofia muscular.
Sobre preenchimentos, já existem pesquisas mostrando que a famosa afirmação "dissolve em seis meses" é falsa. Muitas pessoas ficam com ácido hialurônico no rosto por mais de 10 anos, e conforme o produto migra para outras regiões, a aparência vai ficando envelhecida. Dissolvê-lo com hyaluronidase nem sempre é um processo trivial e muitas vezes a enzima não tem efeito.
Como os estudos sobre procedimentos estéticos sofisticados ainda são muito recentes, é muito comum encontrar profissionais oferecendo serviços que já são considerados inadequados e defasados por outros colegas. Um bom exemplo é o preenchimento das olheiras, que no longo prazo piora o aspecto da região, mas é ainda amplamente oferecido por muitos dermatologistas e esteticistas.
Quando comparamos o processo de envelhecimento de civis com pessoas da mídia, muitas vezes existe uma falsa impressão de que aqueles resultados são fruto de um estilo de vida composto de práticas sustentáveis e não uma série de erros e acertos que são geridos na base de muita grana.
Enquanto isso, a eficácia de tratamentos tópicos, como proteção solar são amplamente estudadas e reconhecidas. Além disso, se você comete um erro com um ácido e sensibiliza seu rosto, é possível reverter uma mancha em, no máximo, alguns meses de tratamento. Os efeitos são menos dramáticos, mas os riscos também são muito menores.
É relevante pontuar que existe uma gama de tratamentos mais superficiais que atuam como "supercremes" provocando a renovação e a recuperação da pele para ajudar a eliminar manchas antigas, por exemplo. Esses tratamentos não são permanentes e também dependem de práticas diárias de proteção da pele para a potencialização e preservação de seus efeitos (principalmente a proteção solar). Por exemplo, não adianta fazer uma sessão de microagulhamento e ir para a praia no dia seguinte.
Apesar do skincare participar de toda essa dinâmica e também ter seu papel na dismorfia e hipervigilância que várias pessoas vivem, ainda sou bastante crítica à mentalidade de recorrer à procedimentos porque tenho medo de cultivar uma mentalidade de insegurança acentuada.
Gosto de passar cremes e ver os resultados dos tratamentos, de sentir a pele macia, de protege-la do sol. Gosto de conhecer produtos novos, acompanhar o efeito de tratamentos. Ao mesmo tempo, olho no espelho e vejo manchas antigas que os ácidos nunca tiraram e vejo que minhas pálpebras são assimétricas, também vejo cicatrizes e pés de galinha, mas não gostaria que minhas características se tornassem minhas inimigas. Acho que são essas coisas que dão graça ao rosto e impede que sejamos todos olhos e boca flutuando em uma gosma sem linhas ou traços (Seja sincero, a Virgínia não tem uma cara e vc nunca seria capaz de reconhece-la numa fila de uma pessoa).

Minha maior angústia não é ver meu rosto envelhecer, as linhas se tornarem mais profundas, a firmeza diminuir. O que me deixa ansiosa é ser ostracizada pelas mulheres que nunca vão passar dos 30 anos fisicamente. Será que vão me achar burra por ter passado anos passando creme no lugar de fazer botox? Será que vou servir de exemplo de uma pessoa que fez escolhas erradas? Será que vou voltar a me sentir como na adolescência? Será que a comparação vai fazer eu me arrepender das minhas escolhas?
Chegar aos 33 anos conformada com a minha aparência foi difícil, mas alimenta uma desesperança sentir que toda essa luta pela decentralização da importância da beleza posse servir justamente como combustível para meu isolamento.